estou ensaiando para escrever desde hj cedo, mas é impossível descrever como me sinto! o meu desespero começou ontem, quando a elisa me ligou avisando que os exames da pê estavam péssimos... creatinina 9,78 e uréia 400.
desde sábado tenho sentido ela amuada e por isso resolvemos fazer exames. na segunda a angélica examinou, mas não disse nada, mas achou ela mal, a boca estava péssima, saliva espessa. a gente sabe. não me pergunte como.
eu tive uma síncope nervosa. liguei ou mandei e-mail para todos que lembrei. alguns ligaram, outros retomaram com mensagens. fiquei um tempão com a susan ao telefone, chorando em pânico, ao ponto de não conseguir falar nada e ela lá, tentando me fazer conversar. depois me acalmei, tentei dormir...
chorei como criança por horas, olhando a pê no sofá, agradecendo por ela ter iluminado meus dias e pedindo desculpas por não ter mais o que fazer por ela. a angélica não disse nada, mas eu já sabia. disse mil vezes que a amava e a coloquei na minha cama antes de dormir.
como sempre, ela saiu e só voltou depois. ficou em cima da minha coxa, se aninhou e dormiu. no meio da noite acordei toda molhada. pensei, porra, to velha para fazer xixi na cama. aí vi que só minha coxa estava molhada e que o xixi era da pê. ela dormindinho de bolinha se mijou toda e continuou ali, deitada no xixi.
arrumei as coisas e tentei dormir de novo. uma hora mais tarde, ela fez xixi de novo. desta vez só de mudei de lugar. por duas vezes achei que ela tivesse morrido esta noite. bolinha, enroladinha e mesmo ao meu estalar de dedos ela não acordava. tive que chacoalhar. quando acordei, tava inchada e cansada.
a elisa me levou na angélica. no caminho, a pê se desequilibrava e rolava dentro da caixa em cada curva. não tinha mais forças para se segurar de pé.
já na angélica, ela andou, tentou entrar na gaiola de alguns gatos e por um momento achei que tudo tinha se resolvido e que ela não precisaria partir. aí ofereci a/d e ela tentou comer, cheirou, lambeu, mas não conseguiu comer, pois devia estar com dor na boquinha. neste instante eu tive certeza que era a coisa certa a fazer.
eu achei que era melhor não assistir, mas fiquei com medo de me arrepender e mudei de idéia. quando avisei, a angélica preparou tudo. estávamos a pê, a su, a elisa, a mari, a angélica e eu. foi terrível. a pior coisa que me aconteceu de longe.
a pê reclamou a beça para ser furada pela última vez. tivemos que tentar 3x. cheguei a desistir e pedi que se não fosse para ser, que a gente errasse de novo, mas acertamos. a angélica colocou soro. eu tava com ela, fazendo carinho e tentando acalmá-la. quando injetamos a anestesia, ela foi acalmando e deitando nas minhas mãos, até que deitou completamente. em questão de segundos o clima tenso se transformou em tranqüilo, triste e profundo.
sei que não é hora de pensar nisso, mas acho que eu deixei as meninas impressionadas, pois eu gritei e tive um surto. chorei, solucei, pedi desculpas, agradeci e disse que a amava. fiquei ali chorando por 4 horas [na minha cabeça], mas foram alguns minutos. as quatro respeitaram meu momento e se afastaram. tenho a lembrança de uma mão me acarinhando as costas, mas não sei identificar quem era. tava tudo escuro e frio.
a pê ainda estava ali, mas não mais no seu corpinho magrelo de modelão. sou bem cética, mas naquele momento percebi que minha filha tava ali comigo e que eu tinha feito o que tinha que ser feito. pq é assim que eu sou. faço o que tem que fazer!
depois disso, tive que engolir tudo e vir trabalhar. pq as pessoas sentem muito, mas não prorrogam os prazos para vc curtir seu luto em paz. to aqui ainda. trabalhei que nem maluca hj. chorando, aos prantos, mas fiz o que tinha que ser feito de novo.
não sou uma pessoa de meias palavras, não gosto de todos que conheço, mas hj, aprendi a ter um pouco mais de compaixão. não desejo para um pior inimigo o que eu passei. o que a pê passou. espero que este sofrimento passe.
a casa ainda está de cabeça para o ar. com edredom e cama com o xixizinho dela. fui em casa antes de vir para o trabalho. a lorena não entendeu pq eu estava sozinha. procurou pela pê. meus gatos em olhando com cara de ué. mas eles precisam de mim e, de novo, eu vou fazer o que tem que ser feito. sofrer. pq eu tenho este direito e ninguém pode tirá-lo de mim. depois, bom, depois a vida mostra, né? quem sabe?
mas queria agradecer de coração a todas que mandaram mensagens, carinhos, telefonemas e sinais de fumaça. em especial, quero agradecer a minha amiga angélica, que nunca me desamparou nesta jornada. foram 5 meses de sofrimento e angustia e ela sempre lá, às 8h30 da manhã com as agulhas em punho e cérebro a mil estudando e caçando tratamentos para ajudar minha filha. por hj, pela forma que ela conduziu tudo, por me amparar, mesmo sem se quer termos trocado olhares até a pê partir. acho que eu não tive coragem.
a susan, por tudo que fez por mim e pela pepita. por ter ajudado financeiramente, emocionalmente. pelos domingos de soro, por ter emprestado o colo do marido dela para a pê deitar nos domingos de “visita”. por ter aberto a casa dela. pelas palavras de carinho, por estar comigo no momento.
a elisa, que sempre me ajudou. por ser mesmo amiga. no significado real da palavra. a mari, que saiu correndo da casa dela e foi nos ver e nos apoiar a pê. pelo carinho, pelo post no blog, pelo apoio.
a ju, por ter colocado a pê na minha vida. resgatado ela e depois me dado a oportunidade de ser lar temporáio dela.a quel, dê, sol, rô, thiago, sil, marisa, rosinha, nice, dani, amandinha. todos, cada um de vocês está no meu coração. jamais vou esquecer o que cada um fez por nós.
hj eu morri um pouco. e nem sei quanto tempo vou ficar assim. mas me darei o direito de ficar de luto, de sofrer, de sentir. e que esta dor se transforme em saudade...
pê, fedidinha, a mãe ama vc com todas as forças. se eu pudesse, morreria para que vc vivesse em meu lugar, saudável. certeza que o céu dos gatinhos agora está mais delicado, gentil, carinhoso, e lindo. que é assim que sua alma é!